Pensamentos de um ilhéu escritos de 2003 a 2010.
Sexta-feira, 27 de Maio de 2005
O benefício da dúvida
Por considerar ser um dos escritos sobre a temática do défice mais esclarecidos da imprensa portuguesa destes dias e por comungar em pleno dos seus pontos de vista transcrevo o Editorial de “A Capital” escrito pelo seu director LUÍS OSÓRIO na edição de 26/05/2005:

Os últimos governos, uns mais do que outros, alimentaram o défice, e este, quase como por milagre, ganhou vida e envenenou o Estado. Depois de Cavaco Silva, que deixou as contas estabilizadas, embora para isso tenha tido condições únicas, seguiram-se Guterres, Durão e Santana.

O primeiro aumentou a despesa pública tendo como objectivo a conquista da maioria absoluta na segunda eleição; o segundo encenou um discurso derrotista que matou o optimismo e destruiu assim a possibilidade de crescimento económico; o terceiro conseguiu em seis meses fazer pior do que alguém poderia imaginar. E o que conseguiram com a sua estratégia? Guterres não conquistou a maioria absoluta e entrou em depressão, Durão apesar da obsessão pelo défice conseguiu agravá-lo em relação ao PS, e Santana, se não tivesse sido posto fora do poder, teria acabado com o País.

Neste cenário de miséria, com o maior défice dos países da zona Euro e da OCDE, vivemos um tempo em que a margem é demasiado estreita. Um tempo em que temos duas soluções principais: a primeira passa por confiar em José Sócrates, acreditar que as opções do seu governo são correctas e podem a prazo estancar a ferida e oferecer-nos uma esperança para o futuro; uma segunda solução passa por condenarmos Portugal ao estatuto de país ingovernável e sem qualquer horizonte.

Neste quadro, e tendo reticências a determinadas medidas do primeiro-ministro, a minha perspectiva passa por dar a José Sócrates e ao seu executivo, até prova em contrário, o benefício da dúvida.

As medidas que apresentou, algumas de grande coragem, provaram que existe determinação para solucionar problemas. E isso, num quadro de pessimismo crescente, é tudo menos um pormenor. Veremos então qual será a resposta do mercado, das pessoas comuns, dos lobbies ameaçados, das oposições e da própria Europa às propostas avançadas ontem no Parlamento.

O cuidado de envolver no esforço global os administradores de empresas de capitais públicos e a classe política foi um importante factor de moralização – notável o silêncio e olhares cruzados da maioria dos deputados no momento do anúncio de tais medidas.

Fundamental também a promessa de auditorias nos ministérios (embora, tal como disse Louçã, não se perceba muito bem os critérios e o timing para essas auditorias), a cativação de verbas afectas aos hospitais e a preocupação de aproveitar o momento para apresentar medidas de longo prazo (como no caso da idade de reforma). O aumento das taxas especiais de impostos, nomeadamente sobre o consumo, é um mal necessário face à brutalidade do défice encontrado pela equipa de Vítor Constâncio.

A subida do IVA, até pelos riscos que comporta para o crescimento da economia, deveria ter sido assumida pelo primeiro-ministro, é essa a minha convicção, como um imposto extraordinário e temporário, forma de corrigir o atropelo ético de os portugueses continuarem a pagar mais do que os cidadãos europeus e fazerem-no devido à incúria dos seus governantes.

Haverá com certeza outras desvantagens, delas falarei decerto ao longo das próximas semanas. Mas de todas as vantagens, a principal é o cuidado de José Sócrates em mostrar, mesmo neste quadro negro, um optimismo que tem sido a sua marca distintiva. Veremos no futuro se as palavras, como no poema, serão ou não levadas pelo vento. Ou, se pelo contrário, estamos perante um primeiro-ministro que ficará para a história.


publicado por Soares Carepa às 13:31
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